Pergunta: Na sua opinião, como as obras de Freud e Marx podem ou deveriam complementar uma à outra?
F. Guattari: Podem
ou deveriam… O problema é que elas efetivamente fazem isso. Pelo menos
na universidade, onde a elaboração de “coquetéis” misturando as duas em
várias proporções parece ser a garantia de uma afiliação política
“apropriada”. Releia Marx, retorne a Freud, assegure a sua coexistência
pacífica… todo um Programa! E então não é maravilhoso ser capaz de
servir às pessoas dessa maneira, no front único do “combate teórico”, sem termos de deixar nossos auditórios e salas?
Não,
não mesmo, esse tipo de questão me deixa muito desconfiado. O
freudo-marxismo é o atarefado trabalho dos acadêmicos Victor Cousin do
nosso tempo. O acadêmico sempre retorna aos mesmos dispositivos para
escapar da realidade, refugiando-se atrás da exegese e da interpretação
de textos. Mas, atrás de Marx e Freud, atrás da “marxologia” e da
“freudologia”, há a realidade de merda do movimento comunista, do
movimento psicanalítico. É daí que devemos partir e para aí que devemos
sempre retornar. E quando eu falo em merda, isso dificilmente é uma
metáfora: o capitalismo reduz tudo a um estado fecal, a um estado de
fluxo indiferenciado e descodificado do qual cada pessoa, em sua maneira
particular, orientada por culpa, deve tirar sua parte. O capitalismo é o
regime da intercambialidade permanente: qualquer coisa nas “corretas”
proporções pode equivaler a qualquer outra coisa. Tome Marx e Freud como
exemplos, reduzidos a um estado de papa dogmática, eles podem ser
introduzidos no sistema sem apresentar nenhum risco a ele. Marxismo e
freudianismo, cuidadosamente neutralizados pelas instituições do
movimento do trabalhador, do movimento psicanalítico e da universidade,
não apenas não perturbam mais ninguém, como na realidade se tornaram os
fiadores da ordem estabelecida, uma demonstração via redução ao absurdo
de que não é mais possível abalar seriamente essa ordem. Alguém poderia
alegar que essas teorias não devem ser culpabilizadas pelos desvios em
suas aplicações; que sua mensagem original foi traída; que, exatamente, é
necessário retornar às fontes, rever as traduções errôneas etc… Essa é a
armadilha do fetichismo. Não há nenhum exemplo comparável em qualquer
domínio científico de um respeito semelhante por textos e fórmulas
pronunciados por grandes cientistas. Aqui, a regra é o revisionismo. O
processo de relativizar, dissolver e deslocar essas teorias
estabelecidas é permanente. Aqueles que resistem estão constantemente
sob ataque. O ideal não seria mumificá-las, mas deixá-las abertas a
outras construções, todas igualmente temporárias, mas melhor
fortalecidas por tal experimentação. O que conta a longo prazo é o uso que se faz de uma teoria.
Portanto, não podemos desconsiderar a implementação pragmática do
marxismo e do freudianismo. Devemos partir de práticas existentes a fim
de retraçar as falhas fundamentais dessas teorias na medida em que, de
uma maneira ou de outra, elas se prestam a distorções desse tipo.
Apenas
com dificuldade a atividade teórica escapa da propensão do capitalismo
de ritualizar e reaver qualquer prática minimamente subversiva
desligando-a de seus investimentos libidinosos (catexe); apenas ao
confrontar lutas reais uma atividade teórica pode esperar deixar seu
gueto. A principal tarefa de uma teoria do “desejo” deve ser discernir
as maneiras possíveis pelas quais ela pode invadir o campo social, em
vez de garantir o exercício quase místico de escuta psicanalítica
conforme ela tem evoluído desde Freud. Correlativamente, qualquer
desenvolvimento teórico acerca da luta de classes neste momento deve
estar preocupado principalmente com sua conexão com a produção libidinal
e seu impacto na criatividade das massas. O marxismo, em todas as suas
versões, exclui o desejo e perde-se de suas entranhas com a burocracia e
o humanismo, enquanto o freudianismo, desde o começo, não apenas é
alheio à luta de classes como, além disso, continua a distorcer suas
descobertas iniciais sobre o desejo, tentando conduzi-lo de volta,
algemado, às normas familiares e sociais do establishment.
A recusa em confrontar essas deficiências fundamentais, a tentativa de
mascará-las, poderia levar a crer que os limites internos dessas teorias
são, na realidade, intransponíveis.
Há duas maneiras de absorver essas declarações teóricas; a acadêmica, que aceita ou rejeita o texto integralmente, e a revolucionária, que o aceita e rejeita
ao mesmo tempo, adulterando-o em uma tentativa de utilizá-lo para
elucidar suas próprias coordenadas e guiar a sua prática. A única questão é tentar fazer com que um texto funcione.
E, desse ponto de vista, o que sempre esteve vivo no marxismo e no
freudianismo, em seus estágios iniciais, não é a coerência de suas
declarações, mas o fato de que o próprio ato de enunciá-las representa
um rompimento, uma maneira de mandarem a dialética hegeliana, a economia
política burguesa, a psicologia acadêmica e a psiquiatria da época etc.
pro inferno.
Mesmo
a ideia de uma possível união desses dois corpos separados, marxismo e
freudianismo, falseia a perspectiva. Algumas partes de um marxismo
“desmembrado” podem e devem convergir a uma teoria e prática do desejo;
partes de um freudianismo “desmembrado” podem e devem convergir a uma
teoria e prática pertinentes à luta de classes. Mesmo a ideia de uma
separação, entre um exercício privado do desejo e lutas públicas de
interesses opostos, leva implicitamente à integração ao capitalismo. A
posse privada dos meios de produção está intrinsecamente ligada à
apropriação do desejo pelo indivíduo, pela família e pela ordem social.
Parte-se da neutralização do acesso do trabalhador ao desejo, da
castração familiar, das iscas do consumo etc. para, subsequentemente,
apossar-se sem dificuldade da sua capacidade para o trabalho social.
Cortar o desejo do trabalho: esse é o principal imperativo do
capitalismo. Separar a economia política da economia libidinal: essa é a
missão desses teóricos que servem ao capitalismo. Trabalho e desejo
estão em contradição apenas na trama de relações de produção, relações
sociais e relações familiares bem definidas: essas do capitalismo e do
socialismo burocrático.
Não
há alienação do desejo, não há complexos psicossexuais que possam ser
radical e permanentemente separados da repressão e dos complexos
psicossociais. Por exemplo, dizer aos chineses de hoje que o seu maoismo
continuará a depender do Édipo universal seria o mesmo que considerar o
próprio maoismo como algo eterno, a renascer sempre de suas próprias
cinzas. Mas é claro que a história não funciona dessa maneira! Um
revolucionário na França depois de Maio de 68, no que se refere ao
desejo, é de uma raça completamente diferente de
seu pai em Junho de 36. Não há relação edipiana possível entre eles!
Nem rivalidade, nem identificação! Não há continuidade na mudança! E se
de fato é verdade que a ruptura é tão radical assim, os teóricos da
sociedade e da psicanálise fariam bem em se preparar para uma séria
reciclagem.
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